Eu culpo todos vocês pela morte do meu amor
e pela morte dos meus heróis, eles não voltam!
Culpo vocês pela minha raiva preta e pelo dinheiro que não mereci.
Não teria como culpar a minha falta de traquejo social,
minha falta de paciência, como culpar o que não há?
Culparia meus critérios, ética e demais inconformidades desenvolvidas?
Tão pouco poderia culpar o que sinto enquanto resto algébrico.
Talvez ainda possa renascer, mas me sinto morto para vocês.
Minha vontade de participar já era, tão ordinário me comprovaram
Eu culpo vocês por me desmotivarem à vida, à lógica,
à sociedade.
Eu culpo vocês todos pelos meus desejos frustrados.
Eu culpo vocês pelas minhas falhas tão celebradas para me desvalorizar
Culpo vocês pelas possibilidades e sonhos tão lindos que vocês me mostraram.
Culpo vocês pela linguagem, culpo pelo meu nome e pela gana sexual.
Por me diferenciarem dos animais, sendo eu tão espécime.
Culpo vocês por minha humanidade tão frágil, mesquinha e triste.
Culpo vocês pelas ideologias transitórias e insuficientes para dar conta da complexidade.
Culpo vocês pela experiência temporal e por envelhecer,
pelo espelho, pelos meus cortes de cabelo!
Pela falta que me faz ser assim tão culpado
Culpo vocês pela culpa de não estar completo sozinho e ser assim tão coletivo.
Uma gazeta existencial e pós-contemporânea. Contém poesias embaraçosas, expressões viscerais escarradas e uma boa dose de caótico desejo intenso. Tudo sem absolutamente nenhum compromisso com a verdade ou ficção.
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Pequenas Saudades
Seu corpo pequeno e suave faz formas que desejo...
Que saudade de outro beijo,
Que saudade de outro beijo.
E me envelheço toda vez que repito
Estes absurdos...
E repito as mesmas saudades da vida que escorre.
Sem saber de outras vidas
Nesta mesmo que agora vivo
Envelhecendo minhas pequenas saudades.
Repito o ser humano mais comum
que se pode nascer e viver.
Este que sempre passou pelos mesmos dramas na vida.
Este intervalo que só começa a fazer sentido
Quando na maioria das vezes já é tarde demais.
Que saudades de outro beijo,
que saudades do primeiro sexo.
Que saudades de procurar,
Sem saber o que já há...
Que saudade de outro beijo,
Que saudade de outro beijo.
E me envelheço toda vez que repito
Estes absurdos...
E repito as mesmas saudades da vida que escorre.
Sem saber de outras vidas
Nesta mesmo que agora vivo
Envelhecendo minhas pequenas saudades.
Repito o ser humano mais comum
que se pode nascer e viver.
Este que sempre passou pelos mesmos dramas na vida.
Este intervalo que só começa a fazer sentido
Quando na maioria das vezes já é tarde demais.
Que saudades de outro beijo,
que saudades do primeiro sexo.
Que saudades de procurar,
Sem saber o que já há...
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quinta-feira, 23 de maio de 2013
Ginolatria Cardioclasta
O problema não é com as mulheres,
Problema é com a paixão.
As mulheres só acontecem de me apaixonarem,
mas é a paixão quem me viola.
Quem me expõe, pássaro canoro
cativo, fugido e liberto da gaiola...
Às mulheres só meu canto, meu sujeito,
É fera então que me devora.
As mulheres são imagens que projeto
das coisas que faltam em mim, ou não quis,
e preciso por desejo assim lacaniano.
A paixão é quem é real e objeta,
Quem faz o tempo, o verbo, a ginolatria cardioclasta.
Problema é com a paixão.
As mulheres só acontecem de me apaixonarem,
mas é a paixão quem me viola.
Quem me expõe, pássaro canoro
cativo, fugido e liberto da gaiola...
Às mulheres só meu canto, meu sujeito,
É fera então que me devora.
As mulheres são imagens que projeto
das coisas que faltam em mim, ou não quis,
e preciso por desejo assim lacaniano.
A paixão é quem é real e objeta,
Quem faz o tempo, o verbo, a ginolatria cardioclasta.
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sábado, 9 de março de 2013
O que amo
Não é seu corpo,
é seu gosto, que seja
então não pela pele
que enruga, envelhece
não pela carne
que seca
não pelo sol
que inverna vida
mas pelo gosto
que ressalta,
pelo gozo
que aprofunda e
[malta,
pelo que me falta.
é seu gosto, que seja
então não pela pele
que enruga, envelhece
não pela carne
que seca
não pelo sol
que inverna vida
mas pelo gosto
que ressalta,
pelo gozo
que aprofunda e
[malta,
pelo que me falta.
sábado, 1 de dezembro de 2012
Transporte do desejo
Saudosas belezas sexuais, verbo sanguíneo, vivo e banal...
Viro o pescoço apressado pelo corpo,
Pois que nú não o verei nunca, só sua nuca
Tão recíproco e atrasado é nosso percurso
Que mesmo nessa proximidade efêmera, o eterno desejo procura sintonia.
Tanto tempo aqui indo, que nem imagino a volta do sentido contrário.
Tocar, cheirar, apertar, tudo isso não farei pois aqui em minha ciência
Os sumos não terei entre os lábios, nem teria literatura verossímil neste caminho, chupasse com tal afeto que imagino.
São tecidos coloridos pelos quais adverbo o meu deleite com a forma túrgida que revela-esconde o pano.
Minhas orgias e prazeres são abusados nestas figuras que constroem meu êxtase, meu transporte anônimo e estrangeiro em si.
Pego outro e vejo mais corpos que nunca mais, transporte, verei.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Sweetheart
Eu vi você velha no sonho
E eu te roubava um beijo
Como qualquer ladrão,
Como fora meu, sweetheart
Mas já banguela, grisalha,
doce, diabética exalava
tanto açúcar refinado,
Você velha no sonho, que envelhece também.
E eu te roubava um beijo
Como qualquer ladrão,
Como fora meu, sweetheart
Mas já banguela, grisalha,
doce, diabética exalava
tanto açúcar refinado,
Você velha no sonho, que envelhece também.
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Cântico Atlântico a Pindorama
Te amo, minha majestade,
Minha rainha, imperatriz, mon chou,
Gloriana, graciliana e mais cheia de graças...
Cigana e princesa, banhista mais bela
À sombra donde canta o sabiá,
Bresiliana vens úmida, vens quente,
Verde floresta, vermelha semente,
Nem África, Ibéria, ou norte América,
Em teu seio, mulher gentil, ó liberdade,
Uma brasa, um braseiro, um brasil...
Com teu resplendor, delícia,
Assim tu me matas, axé sertaneja,
Com teu olhar de ressaca,
Que vem e que praça (!), agreste e criola
Abrindo alas, fazendo ebó e ola.
Redime teus gringos em mingau sublime
E que hajam energias para a tua folia!
Com tanto açúcar, cacau, café, guaraná:
Mulher que és, mulher,
Até na orgia, só faz o que quer.
Te trouxe filhos, me faz teu oceano.
Deságua e me dá tua orla que te beijo na vaga, na espuma e areia,
Nas nossas praias e mangues, abrasamos o canto.
Minha rainha, imperatriz, mon chou,
Gloriana, graciliana e mais cheia de graças...
Cigana e princesa, banhista mais bela
À sombra donde canta o sabiá,
Bresiliana vens úmida, vens quente,
Verde floresta, vermelha semente,
Nem África, Ibéria, ou norte América,
Em teu seio, mulher gentil, ó liberdade,
Uma brasa, um braseiro, um brasil...
Com teu resplendor, delícia,
Assim tu me matas, axé sertaneja,
Com teu olhar de ressaca,
Que vem e que praça (!), agreste e criola
Abrindo alas, fazendo ebó e ola.
Redime teus gringos em mingau sublime
E que hajam energias para a tua folia!
Com tanto açúcar, cacau, café, guaraná:
Mulher que és, mulher,
Até na orgia, só faz o que quer.
Te trouxe filhos, me faz teu oceano.
Deságua e me dá tua orla que te beijo na vaga, na espuma e areia,
Nas nossas praias e mangues, abrasamos o canto.
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terça-feira, 19 de julho de 2011
Crânios
Nossos contingentes crânios vivos
Ali no travesseiro compartilhado
Pressionam nossa existência
à revelação de uma condição
pelos lábios, sonda adentro,
crânio com crânio, vivos!
Pernas trançadas até as cadeiras,
empuxos firmes pelos cabelos
A resfregar dente com carne,
com dente, com carne
num fio frio dilacerado à espinha
que convulsiona o resto todo misturado
num simples vetor, biológico e feliz.
Ali no travesseiro compartilhado
Pressionam nossa existência
à revelação de uma condição
pelos lábios, sonda adentro,
crânio com crânio, vivos!
Pernas trançadas até as cadeiras,
empuxos firmes pelos cabelos
A resfregar dente com carne,
com dente, com carne
num fio frio dilacerado à espinha
que convulsiona o resto todo misturado
num simples vetor, biológico e feliz.
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Doce
Tu és sorriso largo inevitável.
Teus lábios firmes, teus alarmes...
Contigo o amargo é inefável,
Néctar, doce flor. Da tua idade,
Sorriso largo inabalável desdobra
Em pele que descobre a energia
Enquanto órgão a tocar com mãos.
E mima a boca tua em minha carne,
Te toco toda, te testo o tato,
Te estremeço pelo paladar, olfato.
Pele preta eu te encontraste
Em nossa humana tez contraste.
Do chocolate as tuas fendas flores
Rosas, rubras e escarlates,
Seio botão, doce melado a tua idade,
Fundamental arrimo em meu tempo
De burro velho, sábio amargo;
Dulçor no caos, aprecio com maturidade.
Tu és alívio, avalio-te explendor.
Reluto tanto mas te rimo:
Eu te ensino meu carinho
Se me adoças teu sabor.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Colmeia
Tu foste o fim da infância
quando te vi, me vi ereto
e apontando tuas entrâncias
me vi homem, me vi feto.
Aquele ego com moleira
onisciente em ideal
encontrara a violeira,
a roqueira, trash metal,
a mais bela, tais flores vermelhas,
a mais doce, qual o de leite:
Minha ira - mãe de abelhas -
ungindo sexo foste o azeite.
Do meu épico foste rainha,
do cósmico amor em ladainha,
das catedrais de nossas línguas,
do infinito de nossos ouvidos,
atentos de promessas, envolvidos
fez carne, de repente, com pentelhos.
O velho mundo nos fez velhos
e vaguei zangando-me adulto
até entender ser feliz, sem tumulto.
quando te vi, me vi ereto
e apontando tuas entrâncias
me vi homem, me vi feto.
Aquele ego com moleira
onisciente em ideal
encontrara a violeira,
a roqueira, trash metal,
a mais bela, tais flores vermelhas,
a mais doce, qual o de leite:
Minha ira - mãe de abelhas -
ungindo sexo foste o azeite.
Do meu épico foste rainha,
do cósmico amor em ladainha,
das catedrais de nossas línguas,
do infinito de nossos ouvidos,
atentos de promessas, envolvidos
fez carne, de repente, com pentelhos.
O velho mundo nos fez velhos
e vaguei zangando-me adulto
até entender ser feliz, sem tumulto.
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segunda-feira, 22 de março de 2010
Insipiração
Uma escolha inconsciente,
uma decisão irracional,
uma certeza obscura,
uma realidade absoluta,
uma vida crua e pura
de um amplexo animal.
Compreender como passivo
paradoxo do desejo impossível
é uma energia incrível.
Um sonho acordado e recorrente
de largar o corpo na corrente
entregar-se ao leito da serpente
em núpcias com meu caos.
Um amor que hesita
e um tempo que deu êxito
no teu ventre...
e serei mais gente:
menos belo, mais bonito
quando ouvir o grito
de rebento rebentando
tudo o que era plano
e dando peso aos anos
e sentido sem enganos
ao que era meu conflito.
uma decisão irracional,
uma certeza obscura,
uma realidade absoluta,
uma vida crua e pura
de um amplexo animal.
Compreender como passivo
paradoxo do desejo impossível
é uma energia incrível.
Um sonho acordado e recorrente
de largar o corpo na corrente
entregar-se ao leito da serpente
em núpcias com meu caos.
Um amor que hesita
e um tempo que deu êxito
no teu ventre...
e serei mais gente:
menos belo, mais bonito
quando ouvir o grito
de rebento rebentando
tudo o que era plano
e dando peso aos anos
e sentido sem enganos
ao que era meu conflito.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Campos de Flores
Drummond de Andrade me ajudando mais do que nunca.
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.
Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.
sábado, 25 de julho de 2009
Londres & Londrina
De Londres a Londrina
não é qualquer esquina
qualquer menina,
qualquer neblina
de Londres a londrina
não é pequena sina,
não somos mais longe,
só não é o mesmo clima
de Londrina até Londres
tem som de tangerina
que foge dos sabores
selando dois amores
de Londres a Londrina
não é qualquer esquina
qualquer guitarra
que se arranha que me amarra
me alucina a Inglaterra
de Londres a Londrina
meu amor é teu intacto,
minha cratera é teu impacto
de Londres a Londrina
o oceano se destina
aos rios sem horizonte
sem beijinhos ou ponte,
há paixão que não se ensina
de Londrina até Londres
de Londres a Londrina
faz da nau um verso torto
nosso mar um amor morto
sem peixinhos, sem um porto
de Londres a Londrina.
não é qualquer esquina
qualquer menina,
qualquer neblina
de Londres a londrina
não é pequena sina,
não somos mais longe,
só não é o mesmo clima
de Londrina até Londres
tem som de tangerina
que foge dos sabores
selando dois amores
de Londres a Londrina
não é qualquer esquina
qualquer guitarra
que se arranha que me amarra
me alucina a Inglaterra
de Londres a Londrina
meu amor é teu intacto,
minha cratera é teu impacto
de Londres a Londrina
o oceano se destina
aos rios sem horizonte
sem beijinhos ou ponte,
há paixão que não se ensina
de Londrina até Londres
de Londres a Londrina
faz da nau um verso torto
nosso mar um amor morto
sem peixinhos, sem um porto
de Londres a Londrina.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Tradição Oral
Meu avô que é vivo é velhinho, e nunca me contou uma só história. Meu avô nunca me disse nada direito, nem dele, nem de ninguém. Só sei dele o que me falam e a tristeza que vejo naqueles olhos de nunca ter sido entendido direito por nenhum neto. Dá muito trabalho ouvir ele.
É como se ele tivesse perdido a Voz; maiúscula, que vai além do som articulado no ar. Hoje só lhe restam atos. Eu o amo, mas a expressão corporal dele não é das mais simples. A depressão veio e foi, veio e foi com o tempo. O álcool não. Perder pessoas queridas só não é pior que perder a si próprio. Uma vez, várias vezes, até hoje troco umas palavras com o Biguá, meu avô.
Um transeunte que anda semicorcunda, ritmadamente pelas calçadas, com os braços para trás do tronco, segurando o cotovelo esquerdo com a mão direita. Andar que combina com o apelido ornitológico. Moreno, cabelos grisalhos e sem a menor perspectiva de calvície, nariz italiano. Faz mais de trinta anos que ele não fala, tem uma traqueostomia permanente na altura do pomo-de-adão e nunca se adaptou com nenhum aparelhinho de voz. Não teve o mesmo sucesso futebolístico que o xará, que chegou a atuar no antigo Água Verde em Curitiba, e depois no Flamengo.
Toda vez que converso com ele temos exclusivamente um assunto: futebol. Acho que foi meu pai quem me ensinou este truque. Ele é corinthiano, eu santista. Meu pai também era santista.
Acho que meu vô tem um sotaque bem do sul do Paraná. Ele é natural de Irati, ou ali de perto. Minhas avós são polonesas, mas o Biguá é uma mistura bem mais heterogênea. Nosso sobrenome é italiano, mas é sabido de todos que a mãe dele (minha bisa) era bugre, o que quer dizer índio do Paraguai lá onde me contaram essa história.
Esta bisa teve cinco ou mais filhos e morreu quando eles ainda eram crianças. Meu bisavô (de quem meu pai tinha muita admiração), vulgo Macaio, segundo me consta recebeu tal alcunha graças a uma marca de fumo.
O velho Macaio entregou um filho para cada padrinho e caiu na esbórnia. O Biguá trabalhou a maior parte da vida na fábrica de fósforos Paraná como gerente de algo. Tem um dos meus tios que também trabalhou lá contando palitos para colocar nas caixinhas. A fábrica era do Macaio e de mais alguns irmãos, eu acho.
Dois dos filhos acabaram fugindo nestas mudanças e não voltaram mais. Só o Benito, que vivia em Uraí. Ele viveu como bóia-fria, virou indigente, e quando teve um câncer de pele bravo foi que o pessoal voluntário do hospital entrou em contato com a família.
Quando o Benito voltou, meu avô teve mais uma das crônicas crises alcoólicas. Não sei o que rolou com os dois, mas na época isso me mostrou o quanto o não-papo devia ser pesado para os dois. O Benito era santista, foi expulso por um surto do vô e depois foi morar lá em casa.
Dos cinco filhos do meu avô, três sairam corinthianos e dois sairam santistas. Meus tios jogaram todos no Cedrinho F.C. de Iraty. Eu nunca fui muito fã de futebol, não ligo muito mesmo e aos quinze anos achei que se tratava do ópio do povo. Meu avô escuta futebol no rádio.
Outro dia fui com dois amigos no estádio assistir um Santos e Corinthians, só que fui na torcida do Corinthians. Que erro! A sensação de não poder torcer pelo seu próprio time é extremamente delicada. Eu não pude gritar gol e precisei simular contentamento com aquela torcida alheia e carrasca. Tudo para não atentar contra minha própria vida quando fomos derrotados ao final do derby.
Um exercício de paciência. A censura de uma expressão tão primária e forte quanto uma torcida é tal que me levou a um estado borderliner de não sei o quê. Eu só topara a princípio a experiência por acreditar na minha parcial impassionalidade com o assunto, mas jamais aconselho tal experiência para ninguém.
Meu avô grita no meio da torcida e ele deve sentir a vida adversária. Mas isso são coisas que me contaram, a Voz dele eu nunca escutei.
É como se ele tivesse perdido a Voz; maiúscula, que vai além do som articulado no ar. Hoje só lhe restam atos. Eu o amo, mas a expressão corporal dele não é das mais simples. A depressão veio e foi, veio e foi com o tempo. O álcool não. Perder pessoas queridas só não é pior que perder a si próprio. Uma vez, várias vezes, até hoje troco umas palavras com o Biguá, meu avô.
Um transeunte que anda semicorcunda, ritmadamente pelas calçadas, com os braços para trás do tronco, segurando o cotovelo esquerdo com a mão direita. Andar que combina com o apelido ornitológico. Moreno, cabelos grisalhos e sem a menor perspectiva de calvície, nariz italiano. Faz mais de trinta anos que ele não fala, tem uma traqueostomia permanente na altura do pomo-de-adão e nunca se adaptou com nenhum aparelhinho de voz. Não teve o mesmo sucesso futebolístico que o xará, que chegou a atuar no antigo Água Verde em Curitiba, e depois no Flamengo.
Toda vez que converso com ele temos exclusivamente um assunto: futebol. Acho que foi meu pai quem me ensinou este truque. Ele é corinthiano, eu santista. Meu pai também era santista.
Acho que meu vô tem um sotaque bem do sul do Paraná. Ele é natural de Irati, ou ali de perto. Minhas avós são polonesas, mas o Biguá é uma mistura bem mais heterogênea. Nosso sobrenome é italiano, mas é sabido de todos que a mãe dele (minha bisa) era bugre, o que quer dizer índio do Paraguai lá onde me contaram essa história.
Esta bisa teve cinco ou mais filhos e morreu quando eles ainda eram crianças. Meu bisavô (de quem meu pai tinha muita admiração), vulgo Macaio, segundo me consta recebeu tal alcunha graças a uma marca de fumo.
O velho Macaio entregou um filho para cada padrinho e caiu na esbórnia. O Biguá trabalhou a maior parte da vida na fábrica de fósforos Paraná como gerente de algo. Tem um dos meus tios que também trabalhou lá contando palitos para colocar nas caixinhas. A fábrica era do Macaio e de mais alguns irmãos, eu acho.
Dois dos filhos acabaram fugindo nestas mudanças e não voltaram mais. Só o Benito, que vivia em Uraí. Ele viveu como bóia-fria, virou indigente, e quando teve um câncer de pele bravo foi que o pessoal voluntário do hospital entrou em contato com a família.
Quando o Benito voltou, meu avô teve mais uma das crônicas crises alcoólicas. Não sei o que rolou com os dois, mas na época isso me mostrou o quanto o não-papo devia ser pesado para os dois. O Benito era santista, foi expulso por um surto do vô e depois foi morar lá em casa.
Dos cinco filhos do meu avô, três sairam corinthianos e dois sairam santistas. Meus tios jogaram todos no Cedrinho F.C. de Iraty. Eu nunca fui muito fã de futebol, não ligo muito mesmo e aos quinze anos achei que se tratava do ópio do povo. Meu avô escuta futebol no rádio.
Outro dia fui com dois amigos no estádio assistir um Santos e Corinthians, só que fui na torcida do Corinthians. Que erro! A sensação de não poder torcer pelo seu próprio time é extremamente delicada. Eu não pude gritar gol e precisei simular contentamento com aquela torcida alheia e carrasca. Tudo para não atentar contra minha própria vida quando fomos derrotados ao final do derby.
Um exercício de paciência. A censura de uma expressão tão primária e forte quanto uma torcida é tal que me levou a um estado borderliner de não sei o quê. Eu só topara a princípio a experiência por acreditar na minha parcial impassionalidade com o assunto, mas jamais aconselho tal experiência para ninguém.
Meu avô grita no meio da torcida e ele deve sentir a vida adversária. Mas isso são coisas que me contaram, a Voz dele eu nunca escutei.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Samba do Sol ao Eclipse da Lua
Eu ainda sou teu
quando vou pra orgia
e vou chegando o dia
que de ti amanheceu
Mesmo co'alma ao samba
tantas flores nesse mar
jardins de moça bamba
são beijos sem teu néctar
que eu procuro louco,
tu, flor que me delira.
Sambo camélias e rosas,
com marias-sem-vergonha,
sambo letra desastrosa
com perfume de begônia.
Sambo muito, não pouco,
teu eclipse me martira.
Tu és a minha girassol,
sou só um giralua teu.
Lua, o rei és teu plebeu.
mar do amor tu és farol.
Lua, Sol pra ti que samba
tua ausência me esculhamba
me afogo, vou de mal a pior.
Lua, tu és a flor maior!
Deixa-me em raios te beijar,
não vive o samba sem luar.
não se sobrevive ao mar
de flores sem sambar...
quando vou pra orgia
e vou chegando o dia
que de ti amanheceu
Mesmo co'alma ao samba
tantas flores nesse mar
jardins de moça bamba
são beijos sem teu néctar
que eu procuro louco,
tu, flor que me delira.
Sambo camélias e rosas,
com marias-sem-vergonha,
sambo letra desastrosa
com perfume de begônia.
Sambo muito, não pouco,
teu eclipse me martira.
Tu és a minha girassol,
sou só um giralua teu.
Lua, o rei és teu plebeu.
mar do amor tu és farol.
Lua, Sol pra ti que samba
tua ausência me esculhamba
me afogo, vou de mal a pior.
Lua, tu és a flor maior!
Deixa-me em raios te beijar,
não vive o samba sem luar.
não se sobrevive ao mar
de flores sem sambar...
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Sine qua non
Escrever de ti afasta
da condição humana.
A dor diz um basta,
idealiza-se o drama.
Assim que escrevo
releio e relevo
a morte nefasta
pois vida alastra.
Apenas concentro
o fundo do peito
naquele teu jeito
e num pulo adentro
a condição de quem ama.
da condição humana.
A dor diz um basta,
idealiza-se o drama.
Assim que escrevo
releio e relevo
a morte nefasta
pois vida alastra.
Apenas concentro
o fundo do peito
naquele teu jeito
e num pulo adentro
a condição de quem ama.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Prefiro a ti
Vamos falar sobre os anos,
refazer nossos planos.
Esquecer outros casos
e passar outro pano
que tire a poeira
dos nossos retratos.
Vamos acordar os vizinhos
com tantos carinhos,
com tantos beijinhos
que estalam tão alto.
Tudo o que vivi
foi só pra certeza
que prefiro a ti.
refazer nossos planos.
Esquecer outros casos
e passar outro pano
que tire a poeira
dos nossos retratos.
Vamos acordar os vizinhos
com tantos carinhos,
com tantos beijinhos
que estalam tão alto.
Tudo o que vivi
foi só pra certeza
que prefiro a ti.
Soneto Boêmio
A paixão sempre me isola
quando não há o que arder.
Quando nada me amola,
quando é chato viver.
A paixão não cessa,
mesmo sem promessa,
mesmo sem um objeto,
objetivo ou desafeto.
A paixão que me queima
sem fagulha ou oxigênio
faz do meu dia um boêmio.
Um que insiste, que teima
à procura de um prêmio:
bares, paixão e a próxima.
quando não há o que arder.
Quando nada me amola,
quando é chato viver.
A paixão não cessa,
mesmo sem promessa,
mesmo sem um objeto,
objetivo ou desafeto.
A paixão que me queima
sem fagulha ou oxigênio
faz do meu dia um boêmio.
Um que insiste, que teima
à procura de um prêmio:
bares, paixão e a próxima.
terça-feira, 14 de abril de 2009
Dream On
O que foi aquilo?
O que fomos nós
aquele dia?
O mais mágico final,
o mais mítico começo?
Teu abraço, tuas covinhas,
teus olhos nos meus olhos
tão cúmplices e companheiros,
teus cabelos, teus cheiros.
Dez em sete vezes que te amo!
Tua beleza é teu infinito,
tua neblina com teu brilho
O que foi? O que foi aquilo?
A repetição me inebria em teu ciclo.
Encanta-me cada gesto, te reconheço.
Cada palavra, cada gracejo.
Só você dança comigo.
Só teu peito me embala
no mais belo final que valha
o mítico começo que se fala.
Eu só quero que você me queira,
Amore da minha vida...
Cada palavra, cada gracejo
cada risada, cada...
Cada beijo!
Que não se sabe passado,
ou futuro, ou final,
ou começo...
Cada beijo!
Que não conhece o tempo
pois sonho é destino,
felicidade é caminho,
cada beijo, carinho.
O que fomos nós
aquele dia?
O mais mágico final,
o mais mítico começo?
Teu abraço, tuas covinhas,
teus olhos nos meus olhos
tão cúmplices e companheiros,
teus cabelos, teus cheiros.
Dez em sete vezes que te amo!
Tua beleza é teu infinito,
tua neblina com teu brilho
O que foi? O que foi aquilo?
A repetição me inebria em teu ciclo.
Encanta-me cada gesto, te reconheço.
Cada palavra, cada gracejo.
Só você dança comigo.
Só teu peito me embala
no mais belo final que valha
o mítico começo que se fala.
Eu só quero que você me queira,
Amore da minha vida...
Cada palavra, cada gracejo
cada risada, cada...
Cada beijo!
Que não se sabe passado,
ou futuro, ou final,
ou começo...
Cada beijo!
Que não conhece o tempo
pois sonho é destino,
felicidade é caminho,
cada beijo, carinho.
domingo, 22 de março de 2009
Prenda da História
O que que foi agora?
Pensando na vida?
Era tudo o que querias.
Não tudo de saída,
mas feliz caminho a fora.
Tremendas mordomias...
E aquela tua prenda,
era tamanha regalia
do povo era oferenda
ao deus de cara horrenda,
contigo ela deitava
sonhava e só durmia
quando a noite vos deixava,
quando levantasse o dia.
Não tudo de saída,
mas feliz caminho a fora
como da vez que escreveu
aquela ótima metáfora,
só não me lembro a história,
sentimentos ou ferida.
Nem do que aconteceu,
nem do que será memória.
O que que foi agora?
Pensando na vida?
Era tudo o que querias.
Não tudo de saída,
mas feliz caminho a fora.
Tremendas mordomias...
E aquela tua prenda,
era tamanha regalia
do povo era oferenda
ao deus de cara horrenda,
contigo ela deitava
sonhava e só durmia
quando a noite vos deixava,
quando levantasse o dia.
Não tudo de saída,
mas feliz caminho a fora
como da vez que escreveu
aquela ótima metáfora,
só não me lembro a história,
sentimentos ou ferida.
Nem do que aconteceu,
nem do que será memória.
O que que foi agora?
Cartas de Navegação:
amor,
poesia,
trip nostra,
vergonha alheia
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