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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Bar caro é melhor, meu*


Eu sou meio moderno, meio de direita, por isso frequento bares muito bons.
Não sei se você sabe, mas nós, meio modernos, meio de direita, nos julgamos a base do empresariado, desde que consegui este estágio no banco há 15 meses. (Deve ter alguma coisa indo bem com um estágio de mais de 15 meses, confere?)
No bar caro que ando frequentando nas últimas semanas o empreendedor é o Otávio Rosquetta, dono, que cumprimento trocando cartões e acreditando conseguir assim 500 novos clientes pro banco, além de melhorar a imagem.
Nós, meio modernos, meio de direita, adoramos ficar "amigos" do dono, com quem falamos sobre carro enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de bebedeira e mulher.
"Ô, Otávio, traz mais um baldinho de Heineken pra gente", eu digo, soltando a gravata, e me sinto parte de Wall Street.
Nós, meio modernos, meio de direita, odiamos fazer parte do Brasil, por isso vamos de camisa longa a bares caros, que têm mais mulher turbinada que os bares ruins, onde tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira que são os pratos baratos, de quem não tem grana, e não se serve petit gateau.
Se bem que nós, meio modernos, quando convidamos uma mina para sair pela primeira vez, atacamos mais de camarote vip do que tète-a-tète, porque a gente gosta de coisa cara, exclusiva e tal, mas na hora do vamos ver mostrar que tem bastante grana por contraste social é o que conta na Vila Country e micareta.
A gente até gosta do Brasil, mas muito bem dividido. Não é qualquer Brasil. Cada um do seu lado da corda.
Assim como não é qualquer bar caro.
Tem que ser um bar caro novo, um pub, matéria na Vejinha, cerveja importada e, se tiver porção de cebola empanada e área exclusiva, a gente bate uma punheta ali mesmo.
Quando um de nós, meio modernos, meio de direita, descobre um novo bar caro que nenhum outro meio moderno, meio de direita frequenta  não nos contemos: twittamos e marcamos no foursquare a turma inteira de meio modernos, meio de direita e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar caro.
Porque a gente acha que o bar caro é moderno e o bar barato não é, como eu já disse.
O problema é que aos poucos o bar caro vai se tornando velho, vai sendo frequentado por vários meio modernos, meio de direita e gostosas mais ou menos turbinadas.
Até que uma hora tem promoção de chopp e aparece escritório de advocacia, contabilidade, happy hour de telemarketing, barangas e nesse ponto a gente já se sente incomodado e quando chega no bar caro e tá cheio de gente que não é nem meio moderna, nem meio de direita e foi lá para ver se tem mesmo promoção, gente com dinheiro e gostosas, a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio modernos, meio de direita, as gostosas mais ou menos turbinadas e uns quarentões endinheirados que andavam de Harley Davidson.
Porque nós, meio modernos, meio de direita, adoramos dizer que frequentávamos o bar antes de ele ficar barato, vamos a tal balada de camarote vip, ouvimos a música nova no repeat com o porta-malas aberto.
Nós até aturamos os intelectuais que estavam na praia antes, uns maconheiros que sabem tocar violão e usam sandália havaiana, mas isso a gente acha sujo, e a gente detesta sobretudo os pobres que chegam depois, de marmita e cheio de filho cagão chorando.
Pobre não mesmo, a gente não gosta de pobre, velho e feio; de brasileiro só os empregados.
E a gente abomina PeTralha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares caros que a gente frequenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem.
Os que entendem percebem qual é a nossa, mantém o bar caro sem promoção, chamam pra evento reservado toda sexta-feira, introduzem petit gateau no cardápio e não aceitam cheque ou que fique sem camisa lá dentro. Só cartão ou dinheiro, de preferência sem troco.
Eles sacam que nós, meio modernos, meio de direita, somos meio inseguros e nos dispomos a pagar mais caro por aquilo que todo mundo acha um abuso absurdo.
Os garçons que entendem qual é a nossa, diante da segregação, trocam insultos bêbados pelos 10% que pagamos, ou não, engolem seco e põem um sorriso estéril no rosto pensando que cada cerveja ali tem o valor de duas horas de seu trabalho.
Aí eles se fodem, porque a gente adora isso, a gente gosta pagar de rico, como já disse algumas vezes, é aquela coisa cada um no seu lugar, tão americana, tão moderna.
Não pense que é fácil ser meio moderno, meio de direita, no Brasil!
Ainda mais porque a cada dia está mais difícil encontrar bares caros do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos com carro (fosse no busão), funk e rap ligado no talo, prontos para encher nossos bares caros de gente baranga, pobre e a difundir a cebola empanada pelos quatro cantos do nordeste.
Para desespero dos meio modernos, meio de direita, como eu que, por questões ideológicas, preferem cebola empanada e Guinness stout (que não é a mesma coisa que a pilsen nacional, a qual prefiro mas é barata, nós meio modernos, meio de direita, achamos que a gringa é muito mais moderna que nós preferimos essa marca, Guinness, que é mais assim St. Patrick, saca?).
- Ô Otávio, vê um Johnny Walker aqui pra mim. Tem Red, Green, Black e qual mais?

* este texto é um exercício paráfrase e antônimos ideológicos do texto de "Bar ruim é lindo, bicho" de Antonio Prata

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tradição Oral

Meu avô que é vivo é velhinho, e nunca me contou uma só história. Meu avô nunca me disse nada direito, nem dele, nem de ninguém. Só sei dele o que me falam e a tristeza que vejo naqueles olhos de nunca ter sido entendido direito por nenhum neto. Dá muito trabalho ouvir ele.
É como se ele tivesse perdido a Voz; maiúscula, que vai além do som articulado no ar. Hoje só lhe restam atos. Eu o amo, mas a expressão corporal dele não é das mais simples. A depressão veio e foi, veio e foi com o tempo. O álcool não. Perder pessoas queridas só não é pior que perder a si próprio. Uma vez, várias vezes, até hoje troco umas palavras com o Biguá, meu avô.
Um transeunte que anda semicorcunda, ritmadamente pelas calçadas, com os braços para trás do tronco, segurando o cotovelo esquerdo com a mão direita. Andar que combina com o apelido ornitológico. Moreno, cabelos grisalhos e sem a menor perspectiva de calvície, nariz italiano. Faz mais de trinta anos que ele não fala, tem uma traqueostomia permanente na altura do pomo-de-adão e nunca se adaptou com nenhum aparelhinho de voz. Não teve o mesmo sucesso futebolístico que o xará, que chegou a atuar no antigo Água Verde em Curitiba, e depois no Flamengo.
Toda vez que converso com ele temos exclusivamente um assunto: futebol. Acho que foi meu pai quem me ensinou este truque. Ele é corinthiano, eu santista. Meu pai também era santista.
Acho que meu vô tem um sotaque bem do sul do Paraná. Ele é natural de Irati, ou ali de perto. Minhas avós são polonesas, mas o Biguá é uma mistura bem mais heterogênea. Nosso sobrenome é italiano, mas é sabido de todos que a mãe dele (minha bisa) era bugre, o que quer dizer índio do Paraguai lá onde me contaram essa história.
Esta bisa teve cinco ou mais filhos e morreu quando eles ainda eram crianças. Meu bisavô (de quem meu pai tinha muita admiração), vulgo Macaio, segundo me consta recebeu tal alcunha graças a uma marca de fumo.
O velho Macaio entregou um filho para cada padrinho e caiu na esbórnia. O Biguá trabalhou a maior parte da vida na fábrica de fósforos Paraná como gerente de algo. Tem um dos meus tios que também trabalhou lá contando palitos para colocar nas caixinhas. A fábrica era do Macaio e de mais alguns irmãos, eu acho.
Dois dos filhos acabaram fugindo nestas mudanças e não voltaram mais. Só o Benito, que vivia em Uraí. Ele viveu como bóia-fria, virou indigente, e quando teve um câncer de pele bravo foi que o pessoal voluntário do hospital entrou em contato com a família.
Quando o Benito voltou, meu avô teve mais uma das crônicas crises alcoólicas. Não sei o que rolou com os dois, mas na época isso me mostrou o quanto o não-papo devia ser pesado para os dois. O Benito era santista, foi expulso por um surto do vô e depois foi morar lá em casa.
Dos cinco filhos do meu avô, três sairam corinthianos e dois sairam santistas. Meus tios jogaram todos no Cedrinho F.C. de Iraty. Eu nunca fui muito fã de futebol, não ligo muito mesmo e aos quinze anos achei que se tratava do ópio do povo. Meu avô escuta futebol no rádio.
Outro dia fui com dois amigos no estádio assistir um Santos e Corinthians, só que fui na torcida do Corinthians. Que erro! A sensação de não poder torcer pelo seu próprio time é extremamente delicada. Eu não pude gritar gol e precisei simular contentamento com aquela torcida alheia e carrasca. Tudo para não atentar contra minha própria vida quando fomos derrotados ao final do derby.
Um exercício de paciência. A censura de uma expressão tão primária e forte quanto uma torcida é tal que me levou a um estado borderliner de não sei o quê. Eu só topara a princípio a experiência por acreditar na minha parcial impassionalidade com o assunto, mas jamais aconselho tal experiência para ninguém.
Meu avô grita no meio da torcida e ele deve sentir a vida adversária. Mas isso são coisas que me contaram, a Voz dele eu nunca escutei.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Vamos Acabar Com Esta Folga

Texto excelente do Stanislaw Ponte Preta, ou Sérgio Porto (pros menos íntimos)...
Uma belíssima reflexão pós-olímpica:



O negócio aconteceu num café. Tinha uma porção de sujeitos, sentados nesse café, tomando umas e outras. Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o diabo.
De repente, um alemão forte pra cachorro levantou e gritou que não via homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa inicial, motivada pela provocação e logo um turco, tão forte como o alemão, levantou-se de lá e perguntou:
— Isso é comigo?
— Pode ser com você também — respondeu o alemão.
Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma traulitada tão segura que caiu no chão. Vai daí o alemão repetiu que não havia homem ali dentro pra ele. Queimou-se então um português que era maior ainda do que o turco. Queimou-se e não conversou. Partiu para cima do alemão e não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e caiu sem sentidos.
O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez ver aos presentes que o que dizia era certo. Não havia homem para ele ali naquele café. Levantou-se então um inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem. E depois do inglês foi a vez de um francês, depois de um norueguês etc. etc. Até que, lá do canto do café levantou-se um brasileiro magrinho, cheio de picardia para perguntar, como os outros:
— Isso é comigo?
O alemão voltou a dizer que podia ser. Então o brasileiro deu um sorriso cheio de bossa e veio vindo gingando assim pro lado do alemão. Parou perto, balançou o corpo e... pimba! O alemão deu-lhe uma porrada na cabeça com tanta força que quase desmonta o brasileiro.
Como, minha senhora? Qual é o fim da história? Pois a história termina aí, madame. Termina aí que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Paradoxo do Busão

Enquanto as pessoas se sentirem assim toda vez, vai ser difícil o abandono dos automóveis particulares em geral. Muito bom o roteiro e os desenhos... Tema extremamente urbano e relevante. A narração parece que foi feita pelo personagem em um gravador portátil in loco, de tão convincente que são as suas entonações. Sensacional!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Rock n' roll, babe, rock n' roll!!



Aconteceu num sábado. Já fechara o metrô quando fiz baldeação para a linha verde. Não me lembro bem se era Paraíso ou Ana Rosa. Estava voltando do cinema que fui assistir com a Fefa. Era a primeira vez que saía com ela, depois de conhecer numa balada. Provavelmente seria a última, é difícil dar sorte...

Me sentei bem à vontade no banco cinza desocupado. Não foi por nada, havia só uma garota no trem e resolvi me sentar de frente para ela. Imaginei ter visto um piercing na língua dela enquanto ela falava, cutucando outra jóia no nariz delicadinho. Ela era linda e a mini-saia pendia o olhar até o final da meia arrastão, que continuava numa bota preta, que continuava até o fim de um salto alto, até o final de uma ponta fina.

Já era... Estávamos na Consolação quando os dois que acompanhavam a moça desceram, provavelmente para a Augusta. O maluco do bigode também desembarcou. As portas fecharam, o cara do violino parecia um tanto bêbado agora. O contraste da indulmentária erudita com o tio do bigode "do avesso" não permitiu que eu avaliasse o músico direito. Agora ele estava sentado com a cabeça entre os joelhos, deprimente.

Olhei para uns dois cartazes de publicidade rapidamente antes de correr meu olhar para moça, que estava me encarando! Encarar é quase proibido no metrô. Estávamos praticamente sozinhos no vagão... Já queria imaginar que não podia ser sem querer aquela encarada, mas ainda era cedo demais para tirar tantas conclusões.

O metrô pára e abre em Clínicas, imóvel. A capa aberta pelo banco, todo aquele preto era uma moldura para a cintura fininha que brilhava com o piercing no umbigo. Ela abaixou o olhar e com as pernas juntinhas, encostou a mão esquerda na coxa. Começou a repetir o desenho da meia com a ponta do dedo, como se estivesse redesenhando a rede das pernas branquinhas com a unha.

A suicide girl levanta o olhar e o indicador direito, antes que eu pudesse desviar, e chama com o dedo. Olho para trás e ninguém entrou no vagão, as portas fecharam. Balbucio qualquer coisa faticamente para ter certeza de que era comigo.

Aquela cena de propaganda de desodorante me move. Sento-me ao lado dela. Ela se chama Ana, vem de Francisco Morato pela primeira para Sampa, não tem onde durmir e quer passar noite no Morrison, por isso vai descer na estação Vila Madalena:

- Você sabe me explicar onde é?

Viro o olhar para o teto por um segundo, para pensar e, antes que pudesse dizer que era longe pra caramba dali (ou perguntar se ela tinha realmente fugido de casa) ela pulou e me arrancou um beijo. Nossa! Ela tinha um piercing na língua mesmo! Chegando na estação Sumaré vazia, poucos carros lá embaixo. A porta abre, ela coloca a mão dentro da minha calça. Quando já não mais percebia nada, o músico está de pé ao nosso lado, cambaleando e esbravejando:

- Vocês se respeitem, se respeitem!

A porta se fecha, ele se vira e corre mais desolado em direção à porta, batendo no vidro, quase chorando:

- Eu quero descer! Quero descer! Abre, abre!

Ele vira de novo, nos olha, abaixa a cabeça, encosta as costas na porta e desce deslizando até sentar no chão. A porta abre com uma campainha, ele quase cai fora. Levanta-se e vai embora correndo, ao se assustar com a campainha da porta, que se fecha novamente. Rock 'n roll, babe, rock 'n roll...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Deixa eu ver, Cariño, deixa?



Mostrou os olhinhos brilhando com um sorriso... Não tem como não se alegrar. Poderia ficar ainda mais horas online para encontrá-la daquele jeito. Falar era uma telepatia com os dedos. Os silêncios não eram vácuos, pois se preenchiam de calores efusivos. Claramente um ritmo se estabelecia com a respiração.
Vez ou outra ela ligava a webcam. Madeixas negras enquadrando o pescoço e ombro nú. Queria sabê-la, mas perdia o raciocínio em contemplação perplexa. Ela falou que tinha engordado. Sabia que era a deixa para um galanteio mais ousado:

"vc deve tá uma delícia então..."

Imaginava tudo ainda mais redondinho, curvas firmes e suspensas. Quando ela ficava de pé, sua pele sustentava com rígida suavidade toda a carne, cujo peso reforçava ainda mais a perfeita hipérbole na pele debaixo dos seios e da bundinha. Incentivava contido, mas ofegante:

"levanta preu te ver, Cariño
tenho certeza de que vc tá maravilhosa"

A ninfa sabia o que fazer para provocá-lo até o fim. Não existe fetiche mais cruel que a virtualidade:

"não posso, estou só de calcinha"

Foi assim e mais algumas deixas...

"Deixa eu ver, Cariño, deixa?"

domingo, 6 de abril de 2008

Saia



E Deus criou o homem. Mas o homem andava muito borocoxô... Só naquela posição de pensador bêbado.
Aí Deus criou a mulher. Mas mesmo assim o homem não percebeu como que aquilo poderia melhorar. Homem nunca percebe estas coisas, imagine então o primeiro deles.
A mulher andava triste e nua pelo paraíso, sem ninguém para lhe assobiar o balanço. Nem construção civil havia para encher o ego dela... Desesperada e sem filhos, aos 30 e poucos, Eva tinha a mais poderosa combinação estética em si: a própria beleza feminina original. Para ajudar, seus hormônios ferviam e fermentavam de tesão por Adão.
Deus não entendia o que estava acontecendo:
- Porque não te multiplicas, mulher?!
- Tento de tudo, mas nada parece chamar atenção dele, ó pai. Ele fica lá pensando, murcho e sem viço... Não posso mexer naquilo que não é meu, não como está.
- Precisas provocar o homem, minha filha, não deixa ele pensar... Ele será todo teu quando o sangue faltar ao raciocínio.
- Ok...ok... Acho que agora entendo o que dizes, Senhor.
- Queres uma maçã para ajudar?
- Não, não... Dá-me uma saia que resolvo :-)

domingo, 30 de março de 2008

Balcão



O balcão de um bar é um dos melhores lugares para se estar. Existe algo de maduro em ficar encostado ali mamando. Talvez sejam as banquetas altas, inalcansáveis e perigosas para uma criança, mas alguma coisa me diz que isso tem mais a ver com postura de quem ali fica. São os cotovelos apoiados, os pés longe do chão (como se fosse uma criança, inclusive) e, principalmente, a mobilidade rotacional, que permite a quem se instala uma gama de possibilidades sociais que vão muito além do que qualquer limitada "mesa de boteco". Quem senta num balcão não tem foco:

- Tem fogo?

O balcão é como um altar, bebe-se o salário pois não há nada de melhor a fazer com o dinheiro, seja quanto for. São créditos sociais sacrificados com euforia e isso é indispensavelmente necessário para viver. Cada garrafa na estante guarda anos de inteligência cultural, destilada ou fermentada. Doses só podem ser negociadas de maneira justa para ambas as partes ali, no balcão:

- Completa! Por favor...

O balcão atende aos taciturnos, aos estrangeiros, aos estranhos, aos tímidos. Todos os tipos de drinks para todos os tipos de alcólatras. Cada um com seu estilo de vida, personalidade e atitude (atitude, cara!), requisitos sem os quais não se deve sentar num balcão. O balcão é a porta de uma conversa. Porta de entrada e porta de saída. À direita ou à esquerda, para o salão ou para o bar: tudo em volta não teria sentido se não houvesse balcão. Ninguém está sozinho - e nem quer ficar sozinho - quando se encosta no balcão de um bar. Nem mesmo um barman tomando um bourbon no final do expediente. Para ele, o balcão é o limite entre trabalho e hedonismo. Quando vai beber, senta-se fora do balcão e isso tem razão de ser. Mesmo que ele odeie ser barman, isso nunca vai deixá-lo longe de um balcão. O balcão não tem nada a ver com isso:

- Última rodada!

O balcão é onde vícios e virtudes se confundem no discurso. O balcão é a esperança de esperar que algo aconteça, que alguém te conheça. O balcão é onde se fica à vontade para ser como você é, sem se importar com seu próprio humor. Afinal, o balcão é a casa dos humores, é lá que tudo pode mudar. O balcão parece um filme.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Parábola da Árvore da Vida

Uma das histórias favoritas do meu velho poderia muito bem ter sido tirada de algum livro do Evangelho. Tem a cara de uma daquelas parábolas do "Filho Pródigo"; ou então aquela outra do patrão que distribui "talentos" aos servos. Mas não é. Ela foi um pouco atualizada. Some-se a isso minha novíssima versão e fica assim:

Um menino e seu pai plantaram uma árvore. Era a primeira que o pequeno ajudava algo a nascer. Aquilo não tinha muito sentido na sua cabeça:

- Pai, p'ra quê plantar árvores se elas nascem sozinhas?

- Ora, filho, esta vai crescer aqui onde escolhemos, não precisaremos ir até ao mercado comprar seus frutos e teremos uma frondosa sombra para descansar.

Assim, fez sentido dar vida àquela árvore. O menino aprendeu a cuidar e ter muito carinho pela muda, que logo espichou, multiplicou seus galhos, raízes, folhas, flores e frutos.

Um triste dia, o pai do garoto morreu. O menino que não entendia isso direito, saiu a vagar e neste dia descobriu que podia conversar com o vegetal. Ele chorava porque era muito novinho e sem seu pai não sabia nem como arranjar comida. Foi assim que, num gesto paternal, a árvore ofereceu seus frutos. O piá comeu tudo o que pôde e fez uma baita sujeira. Lambuzou-se e com fiapos entre os dentes aproveitou até o caroço de cada polpa. Cresceu com isso... Estudou, não usou muitas drogas recreativas, exercitava-se regularmente e quase nunca lembrava de visitar a velha amiga árvore...

Num outro dia especial xis, o menino virou um jovem... E conheceu uma moça... quase uma princesa! Por quem se apaixonou. Mas ela era de uma província distante e o nosso protagonista não tinha condições financeiras de vê-la constantemente. Desesperado saiu a caminhar de novo, imaginando alguma solução para seu dilema. Foi conversar com a grande árvore, que temerosa lhe ofereceu os galhos, ainda cheios de flores e frutos para que construísse uma jangada, trocasse por passagens de avião e fosse se aventurar pelo mundo e pelo amor. Nosso jovem conheceu novas terras, desbravou incontáveis províncias e conheceu algumas princesas antes de se decidir.

Eis que o jovem corre o mundo e encontra um amor verdadeiro. Os dois se casam e querem casa nova, o espaço é pouco para tanta gente. Ele e a família precisam de uma casa, mas não há dinheiro para comprar. Um pouco mais maduro (mas não muito), ele volta para visitar a árvore. Depois de muita cerimônia, ele finalmente pede para que sua (já não tão frondosa) amiga lhe dê o tronco. Ela, tremendo de pavor (igual vara verde), entende e se entrega, até restar apenas um toco.

A vida passa, e a casa protege todos do frio e da chuva. Cada um toma seu rumo e o moleque, agora um senhor, sente-se só por vezes. Ele vai até o toco por vezes também... Conversam e lembram sobre suas vidas: o homem conta suas viagens, a árvore suas estações. Ele virou um grande resmungão e se diz, por vezes, cansado da vida e indignado com as atitudes alheias. O toco sempre ouve tranqüilamente e procura compreender. Num rompante curioso, o homem pergunta:

- Ora, porque você sempre foi tão generosa comigo se as árvores nascem sozinhas? Transformei-lhe num toco e nada mais pode oferecer para me ajudar hoje...

A árvore, enquanto toco, se oferece como assento. O homem aceita envergonhado e cansado. O toco dá um profundo suspiro e diz, irradiando felicidade:

- Contemple daí sentado meus brotos nascendo. Todas estas sementes você ajudou a germinar enquanto comia meus frutos, espalhava meu pólen pelo mundo e passou demãos de verniz em sua casa para me eternizar... sou eternamente grata.

Ele olha ao redor e se percebe sentado num toco, o centro do frondoso bosque que virara seu quintal. O toco arremata:

- Me sinto muito feliz por ser o lugar onde você vem refletir sobre a vida, filho.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Bono Vox e a Sagacidade Lusitana

Em um concerto do U2 em Lisboa, Bono pediu silêncio ao público e começou a bater palmas compassadamente. Olhando para as pessoas, que estavam em silêncio, ele disse no microfone:

- Eu quero que vocês pensem em algo muito sério. A cada batida de minhas mãos, uma criança morre na África.

Nesse momento uma voz das arquibancadas grita:

- Então para de bater, ó filho da p*&¨%!

(Recebi por e-mail)

sábado, 24 de novembro de 2007

Toilet very pleasant surprise - parte II

Para ler este conto, recomenda-se a leitura da parte I.



Tô chegando na balada e encontro Carol logo na entrada, com uma amiga. Lá vem... a Carol de novo... a última vez que vi ela, acho que ela tava com o John e rolou aquela conversa do banheiro com ele... foda...hehe...mas acho que nem rolou mais nada entre os dois também... pensando bem ela é meio estranha, né não?! Acho que foi por isso q parei de sair com ela in the first place :-S

- Oi, tudo bem?
- Olás!!! Tudo jóia... tá chegando agora?
- Acabei de chegar, e vc?
- Que bom!!! Gosto de chegar no mesmo horário q vc na balada ;-)
- Hehe...
- Essa é minha amiga, Gisele!!!
- Olá, prazer, Fernão.
- Prazer...
- Bom...vou pra lá encontrar o pessoal, a gente se tromba...
- Vai lá... até mais.

Fui pro bar... encontrei mais uns conhecidos... troquei umas idéias... quando estou indo finalmente comprar a breja, Carol com a amiga:

- Hey! Você de novo?
- Graaande Carol!
- Vamos dançar?!
- Já vou lá...

É... ela continua simpática, e com um sorriso sensacional, mas é definitivamente estranha e exagerada... Acho que vou mijar... Tô saindo do banheiro, logo na porta. Carol, sem a amiga, me pergunta repentinamente contra a parede:

- Por que foi mesmo que a gente parou de sair?
- Não sei, mas acabei de lembrar porque a gente ficava...

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Toalhinha Chapada



Sinto que não sobrou ninguém para me compreender. O tempo levou meus amigos, amigas, minhas intimidades adolescentes para um lugar onde não posso resgatá-las em público... Não posso mais falar abertamente sobre as coisas que preciso, sob a pena de não ser interessante ou de me expor ao ridículo. Minha memória e as histórias que vivi vão esvaindo da minha mente como se tudo o que vivi até agora absolutamente não fizesse diferença para ninguém. Nem mesmo os momentos compartilhados com os outros parecem ter algum valor quando minha presença é lembrada. Tudo aquilo que acreditava ser "vida perfeita" desmonta como um beck a ser dixavado e fumado pela letargia dessa fumaça verde que já está impregnada em todos os meus fios de cabelo.

Já não fecho mais os olhos para pular. E quando pulo não é mais do alto. Todos conseguiram sua própria companhia e eu não mais consigo me aproximar de ninguém. O desespero é tão imenso que enquanto o raciocínio me grita que não posso amar mais o desejo do que o objeto desejado, meus animais me sufocam implorando o contato com um corpo alheio qualquer. Antes fosse mudo do que ter uma voz que não se presta a falar algo de valor ou mesmo riso à minha amada!

Maldita vergonha de mim mesmo, de olhar as pessoas nos olhos, como se ninguém mais dentro do comboio tivesse fumado um baseado pela manhã. Sou um marginal de mim mesmo que agora se isola sobre o anonimato infantil da internet para escrever as coisas que corroem minha realidade pós-formado-empregado-se-virando-sem-mulher-ou-sorte.

Não sei nada sobre o amor na metrópole, ou sobre qualquer valor possível para o relacionamento entre um homem e uma mulher neste ambiente tão devorador. A confiança em encontrar alguém de naipe vai sumindo a cada namorada que chifra e goza do respectivo em meus lençóis. Uma delas já me disse que fico com a melhor parte da história: "você me come e não precisa agüentar minha TPM"...

No fundo o que ela quis dizer é que ninguém espera responsabilidade qualquer de minha parte. Nem mesmo sem camisinha eu trepo para aquela vagabunda não ter chance de engravidar, sem chance! Até porque namorada dos outros só aparece quando tá menstruada... Estas vacas vêm e vão e às vezes me apego a elas... o que a solidão não faz com o ser humano?! Até que elas percebem como sou ridículo, carente, sem amor-próprio e vão embora com seus respectivos oficiais...

Me sinto como se fosse a toalhinha chapada do South Park... pior! Como se a toalhinha fosse um modess... tudo por culpa de mim mesmo e das coisas que faço.

"Do you wanna get hiiiiiiigh?!"

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Toilet Very Pleasant Surprise - parte I

Legal te ver, Carol :-)
Assim tão do nada...
Desde o dia da torre do relógio.
Eu não te liguei, né :-$
Mas vamos combinar algo.
Princesa... que surpresa agradabilíssima!
Chegou faz tempo?
Heheh... desde o começo, então...
Não, não, cheguei agora, meu primeiro copo.
Como fiquei feliz em te ver...
Como vai o teatro?
Ah, é?! Trabalhando em quê?
Vai se formar logo?
Legal! Me formei em Julho.
Trabalhando... baladinha de vez em quando...
Poxa... saudades de falar com você.
Nunca mais te vi...nem no messenger...
tá... eu procuro sim... saudades de sair com você também ;-)

Caralho! Que mina...
Vou mijar.

Por que será que parei de sair com ela?
Que babaca eu sou! Acho até que a gente tava indo bem.
Como ela é linda!
Sorriso sensacional... delícia...
- É, meu caro... têm coisas que acontecem que são inexplicáveis... umas coisas que a vida apronta que a gente nem pode imaginar! Hehehe! Surpresas Agradabilíssimas! Voltas doidas dá esse nosso planetinha!
- Quem tá falando isso, é minha consciência?! Hahahaha....
- Hahahah! Fááála, rapaz!
- Graaande! Belezinha?!
- Tudo ótimo! Fiquei com a Carol hoje, mano... Ainda não tô botando uma fé! Ela é um espetáculo, meu velho!
- Caraaaalho! Deixa eu lavar a mão pra te cumprimentar, mano!