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sábado, 5 de janeiro de 2013

Apego


Não é que tenha perdido minha espiritualidade,
Ou que o mundo dos sonhos e ideais tenha sido recalcado,
Jogado em um lugar obscuro da existência...
Pelo contrário, eles são condicionantes,
Como ainda são o tempo e o espaço ao corpo
Só que eles estão aqui na realidade agora.
Muito misturados, por certo, à matéria...
Não dá mais pra dizer quem é café e quem é leite
no que antes era escuro ou via láctea.
Na realidade eu acordo com o mundo dos outros
E ela só me pede de volta o caos que trago.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Religião

É muito linda essa dona florida
Ela é linda demais, um mito, uma estrela.
Uma bela cognição, uma flor...
Compreendida, coletiva cadela,
Universal, cultural donzela:
Solução da sede, arroto da gula,
Fonemas e letras, desenhos e estátuas, relicários e anéis.
Assimilação que inclui e agrega quem nunca chega,
Em detrimento do comum e do costume faz guerra,
Nos privilégios de quem oferta a miséria
E não recebe covardia ante este seu lindo brilho tenaz,
Há quem alerte já ancestral e cego do preço do quarto,
Do tabu de olhar p´r´o sol sem respeito,
mas já é tarde e a pena divina que ardeu sua retina não volta,
E a morte não fora vencida pela matéria
E a vida ali perdida em longa adoração...
Ela é linda que cega, e ainda junta as moedas!
Puta e cafetina dos povos, gostosa cabaça, imoral .
Provoca, promete e não entrega... não salva, prega.

domingo, 12 de junho de 2011

Soy Hedonista

Direitos divinos devem ao orgasmo,
Deveres humanos devem pleonasmo.
Ser não esta tal comparação,
Direitos humanos aos humanos
e só amor ao teu pet a filiação.

Humanos tão direitinhos, caminhos
com trilhinhos de bitolinhas
e ladrilhinhos tão estreitinhos...
Com medinho de amar ou de ter feridinhazinha de amor no coração...
Tudo perfeito e infantilizado
como uma realidade generalizada:
sem sal, à vacuo, ponta de gôndola.

Mesmo se quiseres sonhar acordado,
só te darão uma opção real de redenção:
insônia e aquela súmula ao pé sono.
Se orar e agir em Deus intencionado,
sem um sorriso cínico e áfono
no canto do beiço, será bem bobo e irresponsável.

Yo no creo en Dios. Soy hedonista.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Doce


Tu és sorriso largo inevitável.
Teus lábios firmes, teus alarmes...
Contigo o amargo é inefável,
Néctar, doce flor. Da tua idade,
Sorriso largo inabalável desdobra
Em pele que descobre a energia
Enquanto órgão a tocar com mãos.
E mima a boca tua em minha carne,
Te toco toda, te testo o tato,
Te estremeço pelo paladar, olfato.

Pele preta eu te encontraste
Em nossa humana tez contraste.
Do chocolate as tuas fendas flores
Rosas, rubras e escarlates,
Seio botão, doce melado a tua idade,
Fundamental arrimo em meu tempo
De burro velho, sábio amargo;
Dulçor no caos, aprecio com maturidade.
Tu és alívio, avalio-te explendor.
Reluto tanto mas te rimo:
Eu te ensino meu carinho
Se me adoças teu sabor.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Insipiração

Uma escolha inconsciente,
uma decisão irracional,
uma certeza obscura,
uma realidade absoluta,
uma vida crua e pura
de um amplexo animal.

Compreender como passivo
paradoxo do desejo impossível
é uma energia incrível.
Um sonho acordado e recorrente
de largar o corpo na corrente
entregar-se ao leito da serpente
em núpcias com meu caos.

Um amor que hesita
e um tempo que deu êxito
no teu ventre...
e serei mais gente:
menos belo, mais bonito
quando ouvir o grito
de rebento rebentando
tudo o que era plano
e dando peso aos anos
e sentido sem enganos
ao que era meu conflito.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Profundidades da alcova

O que é a vida?

Olhando para o teto,
de madrugada,
quase cedo,
p'ra esquerda,
p'ra direita.

Tenho olhos
que não me veem,
só no espelho,
quando tem luz...

O galo canta.

Mas é invertida a imagem,
me olha vazio,
da pupila,
escura,
dilatada,
do escuro.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

paulo leminski



Acabei de voltar da exposição que tá rolando no Itaú Cultural da Paulista. Excelente! Várias entrevistas e poemas q não conhecia... O melhor de tudo, é de grátis! Esse é um dos poetas que eu mais gosto de digerir...

********************

nunca quis ser freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista

queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixo os ponteiros.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Samba do Sol ao Eclipse da Lua

Eu ainda sou teu
quando vou pra orgia
e vou chegando o dia
que de ti amanheceu

Mesmo co'alma ao samba
tantas flores nesse mar
jardins de moça bamba
são beijos sem teu néctar

que eu procuro louco,
tu, flor que me delira.
Sambo camélias e rosas,
com marias-sem-vergonha,

sambo letra desastrosa
com perfume de begônia.
Sambo muito, não pouco,
teu eclipse me martira.

Tu és a minha girassol,
sou só um giralua teu.
Lua, o rei és teu plebeu.
mar do amor tu és farol.

Lua, Sol pra ti que samba
tua ausência me esculhamba
me afogo, vou de mal a pior.
Lua, tu és a flor maior!

Deixa-me em raios te beijar,
não vive o samba sem luar.
não se sobrevive ao mar
de flores sem sambar...

sexta-feira, 20 de março de 2009

Poema é quando se escreve
mais ou menos p'ra si próprio.
Por isso mesmo nem sempre
é belo ou cheira a papoula,
nem sempre se rima a ópio.
A tentativa vem do ócio
e da pesca à palavra, pula.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Nihil lacrima citius arescit

P'ra eu te esquecer é um minuto.
O que eu chorei
Foi só por pobre de mim.
Amanhã vai ter outro a fim
E nem lembrarei
que disseram que amei.

Pois bem eu sabia
que seu coração aflito
evitava o conflito
e cansado durmia,
se achando o astuto,
enquanto eu gozei.

Sei, bem, eu sei.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ex movere

Primeiro escrevo tudo
aquilo que me aflige.
Que traga cigarros,
que range dentes
quando tento sonhar.

Escrevo e encaro
como quem escarro
e mastigo quando tento,
como tento desejar.

Onde o real,
o concreto
se encontra
com o ideal?

É no corpo,
só no sentimento?
No sentido?
Do que se lembra?
E a vida?
Diga lá o que é, baby:
uma coleção de emoções?

Um chuveiro quebrado,
um bom negócio?
um pai que morre?
um filho?
presença e saudades da amada?
realizações profundas, sagradas?
e as sacrificadas?
eram menos profundas ou sagradas?

Como os mitos são forjados?
Uma liga de bronze fundido
rompe as carótidas de um cordeiro pensante.
Qual o drama? You missed the plot!
O ator tá morto no deserto.

Qual o drama do herói?
Representar a todos?
Sendo assim?
Escutando fantasmas?

Porque escrevo meus poemas
no meu caderno de informações profissionais?
Os fantasmas não eram nada
mais que o ranger dos meus próprios
dentes quando amanhecer.
Amanhã é segunda-feira,
ou daqui a pouco?

Releio, declaro
com beijo e phalo
que quero te amar.
Se eu quero que você me ame,
começo a te amar.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Paradoxo do Busão

Enquanto as pessoas se sentirem assim toda vez, vai ser difícil o abandono dos automóveis particulares em geral. Muito bom o roteiro e os desenhos... Tema extremamente urbano e relevante. A narração parece que foi feita pelo personagem em um gravador portátil in loco, de tão convincente que são as suas entonações. Sensacional!

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A Boy named Sue

Excelente som de Johnny Cash:
A Boy Named Sue was first sung by Johnny Cash in 1969 at San Quentin. The song was written by Shel Silverstein, and become a humongous hit. It went to #1 on the Country charts, and #2 on the Pop Charts.



My daddy left home when I was three
And he didn't leave much to ma and me
Just this old guitar and an empty bottle of booze.
Now, I don't blame him cause he run and hid
But the meanest thing that he ever did
Was before he left, he went and named me "Sue."

Well, he must o' thought that is quite a joke
And it got a lot of laughs from a' lots of folk,
It seems I had to fight my whole life through.
Some gal would giggle and I'd get red
And some guy'd laugh and I'd bust his head,
I tell ya, life ain't easy for a boy named "Sue."

Well, I grew up quick and I grew up mean,
My fist got hard and my wits got keen,
I'd roam from town to town to hide my shame.
But I made a vow to the moon and stars
That I'd search the honky-tonks and bars
And kill that man who gave me that awful name.

Well, it was Gatlinburg in mid-July
And I just hit town and my throat was dry,
I thought I'd stop and have myself a brew.
At an old saloon on a street of mud,
There at a table, dealing stud,
Sat the dirty, mangy dog that named me "Sue."

Well, I knew that snake was my own sweet dad
From a worn-out picture that my mother'd had,
And I knew that scar on his cheek and his evil eye.
He was big and bent and gray and old,
And I looked at him and my blood ran cold
And I said: "My name is 'Sue!' How do you do!
Now your gonna die!!"

Well, I hit him hard right between the eyes
And he went down, but to my surprise,
He come up with a knife and cut off a piece of my ear.
But I busted a chair right across his teeth
And we crashed through the wall and into the street
Kicking and a' gouging in the mud and the blood and the beer.

I tell ya, I've fought tougher men
But I really can't remember when,
He kicked like a mule and he bit like a crocodile.
I heard him laugh and then I heard him cuss,
He went for his gun and I pulled mine first,
He stood there lookin' at me and I saw him smile.

And he said: "Son, this world is rough
And if a man's gonna make it, he's gotta be tough
And I knew I wouldn't be there to help ya along.
So I give ya that name and I said goodbye
I knew you'd have to get tough or die
And it's the name that helped to make you strong."

He said: "Now you just fought one hell of a fight
And I know you hate me, and you got the right
To kill me now, and I wouldn't blame you if you do.
But ya ought to thank me, before I die,
For the gravel in ya guts and the spit in ya eye
Cause I'm the son-of-a-bitch that named you "Sue.'"

I got all choked up and I threw down my gun
And I called him my pa, and he called me his son,
And I came away with a different point of view.
And I think about him, now and then,
Every time I try and every time I win,
And if I ever have a son, I think I'm gonna name him
Bill or George! Anything but Sue! I still hate that name!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Jack Kerouac

texto passado por email por um amigo:



"Aqui estão os Loucos. Também chamados de desajustados, rebeldes e criadores de caso. Aqueles que veem coisas de uma forma diferente, que não gostam de muitas regras e que não respeitam o status quo. Você pode elogiá-los, discordar ou duvidar deles, endeusá-los ou difamá-los. A única coisa que não pode fazer é ignorá-los pois eles provocam mudanças. Eles inventam. Imaginam. Resolvem. Exploram. Criam e Inspiram. Eles obrigam a espécie humana a evoluir. Talvez eles tenham que ser loucos. De outra forma, como alguém poderia enxergar uma obra de arte em uma tela vazia? Ou sentar em silêncio e imaginar uma música que nunca foi escrita? Ou olhar a lua e imaginar uma estação espacial? Alguns podem vê-los como loucos, nós os chamamos de empreendedores. Pois as pessoas que são loucas o suficiente para pensar que podem mudar o mundo, são justamente aqueles que o fazem."

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Café também é droga

Cuidado, crianças...



Ainda estou procurando uma tradução inteira... mas a animação é animal e dá pra entender bem o sentido e o tanto que o cara vai ficando noiado enquanto canta... hehehe

sábado, 17 de maio de 2008

O Sono

Sono passa fome,
e a fome passa...
Sono passa dor,
e a dor passa...
Sono passa calor,
e o calor passa...
Sono passa tempo,
e o tempo passa...
sono passa sono,
não, o sono não passa...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Artista é o caralho

Super som que ouvi na Virada Cultural... Demorei uns dias pra postar, mas isso não desmerece a Orquestra Imperial, que destruiu no show de Domingo retrasado na Av. São João e tocou até "Stairway to Heaven" (!!) quando deu pau no retorno de som do palco.
Essa música é como um desabafo de todos aqueles que vivem a vida na "subjetividade", mas não querem nem saber do rótulo (vagabundo) de "artista".
Los Hermanos morreu, mas a boa música brasileira se multiplica com seus espólios, sem tirar o valor de qualquer outro da banda (é só que eu não conhecia os demais).
Aliás... a fadinha que estava de azul no palco tb me deixou boquiaberto com aquela voz...
Aqui vai a música (num show do Circo Voador), mas a good vibe sonora carioca também estava presente no show de Sampa. Por um breve momento me senti no Carnaval do Rio durante o show... E olha que eu tava em plena avenida São João!



Artista é o caralho
(Orquestra Imperial)

Eu sou bom de cama, sei fazer café
E ninguém reclama do meu cafuné
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Eu sou bom de bola, jogo com calor
Canto na viola sempre com amor
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Canto no banheiro sem vacilação
Já ganhei dinheiro na televisão
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Gosto de cinema, gosto de dançar
De fazer poemas em papel de bar
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

Já entrei na lista de uma tal mulher
Que é capoeirista e tem samba no pé
Mas... artista é o caralho, é o caralho!

domingo, 27 de abril de 2008

Your emotion to the ocean

Waking life permanece como o melhor filme que já assisti. Essa cena, a melhor cena. Aqui vai também o trecho do script que não tive os dons de traduzir, pq acho q fica uma merda toda vez q tento traduzir. Além de diálogos potentes, o filme tem uma edição ótima, uma direção de arte de tirar o fôlego. Foi a primeira vez na vida que assisti um filme nesta técnica de rotoscopia, que consiste basicamente em filmar e depois desenhar por cima no computador.

A sensação "onírica" é completa com as camadas (layers) de desenhos que se movem em direções independentes. Deixam até mesmo tontos, nos primeiros minutos, os mais esteticamente fracos da vista. Vale a pena também reparar no tamanho do olho do marinheiro enquanto fala e no patinho que faz "blablablá" na altura do 1min24s hehe.

Sempre achei q o cara falava "your emotion to the ocean"... hoje quando fui procurar o roteiro percebi que era "we're in motion to the ocean". Ainda acho muito melhor do jeito que ouvi pela primeira vez, mas tudo bem, isso não muda muuuuita coisa na cena, só fica um pouco mais mecânica e um pouco menos lírica...

Será que ele não fala "your emotion to the ocean"? mesmo??? claro q não :-$
Bom, assistão vocês mesmos... Toot, toot!



(A boat car drives up in front of the airport)

Ahoy there matey! You in for the long haul? You need a little hitch in your get-along, a little lift on down the line?

Oh, um, yeah, actually, I was waiting for a cab or something, but if you want to ...

All right. Don't miss the boat.

(He gets in.) Hey, thanks.

Not a problem. Anchors aweigh!

So what do you think of my little vessel? She's what we call "see-worthy." S-E-E. See with your eyes. I feel like my transport should be an extension of my personality. Voilà. And this? This is like my little window to the world, and every minute it's a different show. Now, I may not understand it. I may not even necessarily agree with it. But I'll tell you what, I accept it and just sort of glide along. You want to keep things on an even keel I guess is what I'm saying. You want to go with the flow. The sea refuses no river. The idea is to remain in a state of constant departure while always arriving. Saves on introductions and good-byes. The ride does not require an explanation. Just occupants. That's where you guys come in. It's like you come onto this planet with a crayon box. Now, you may get the 8-pack, you may get the 16-pack. But it's all in what you do with the crayons, the colors that you're given. And don't worry about drawing within the lines or coloring outside the lines. I say color outside the lines. You know what I mean? Color right off the page. Don't box me in. We're in motion to the ocean. We are not landlocked, I'll tell ya that. So where do you want out?

Uh, who, me? Am I first? Um, I don't know. Really, anywhere is fine.

Well, just -- just give me an address or something, okay?

Uh --

Waking Life: Chapter 2 - Anchors Aweigh: Linklater without a head(The guy sitting next to him in the back seat speaks up) Tell you what, go up three more streets, take a right, go two more blocks, drop this guy off on the next corner.

Where's that?

Well I don't know either, but it's somewhere, and it's going to determine the course of the rest of your life. All ashore that's going ashore. Ha ha ha ha ha. Toot, toot.

***

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Ofídeo

Esse cara (Squeeze Girl) é tão trash, mas tão trash que merece um poeminha trash, só pra ele:

Você rompeu
membranas no meu coração.
Dilacerou meu peito,
roubou meu sorriso,
calou um violão ventrículo,
meu assunto morreu venoso.

Uns anos de retratos,
uma caixa inútil
na vida de um réptil.

O sangue frio
bota fogo nas fotos:
uma a uma.

O sol e a desmemória
aquecem as hemácias
num abraço-anaconda,
viram amazonas à caça
de subterfúgios de carne.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Amor Natural (Carlos Drummond de Andrade)



Fazia muito tempo q procurava estes poemas pornográficos do Drummond, mas nunca tinha encontrado... Talvez não tivesse procurado direito, mas valeu a pena encontrar. São absolutamente sensacionais!

Sei que este blog anda um tanto quanto "libidinoso", mas fases são fases... Sem contar que existem influências externas para isso... um assunto puxa o outro.

Enfin! Me parece que a idéia de "bicho humano" nunca esteve tão desenvolvida quanto na cabeça dele. Ao mesmo tempo que, nestes versos, vai atrás de um hedonismo crú, quase egoísta; Drummond acaba de me provar que é possível perder todos os pudores publicamente sem ser vulgar com a própria imagem. Sem deixar de sentir o mundo nos ombros, ou de querer andar por aí de mãos dadas, ou de ser anjo gauche na vida, ou de encontrar pedras no caminho, ou de ser um humano: "estranho ímpar".
O último desta lista é é sem dúvida meu favorito. Aqui vão:

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.


A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.


A castidade com que abria as coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.


Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.


Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.