segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Guerra

O que é uma guerra?
Simples e infantil te pergunto:
Por quê? Qual é o sentido?
O que vai te resolver sair tretando na vida?
De verdade... tá rolando,
parece que se aproxima como uma besta apocalíptica
daqueles mitos que precisam ser resgatados
pois as imagens estão muito distantes dos círculos
e sem referência cotidiana.
Precisa pensar no passado pra entender...
É coisa de filme dentro das sociedades...
pessoas brincando de bang-bang ao vivo,
correndo de carro e moto, na roleta russa...
e eu assistindo na minha própria preocupação cotidiana,
besta e metropolitana...
fazendo da vida exatamente o que hollywood
mostrou por décadas, por razões dramáticas.
Ou sou só eu preocupado com o noticiário, viajando na deles?
Tá do jeito que sempre foi, se olhar pro passado...

terça-feira, 19 de julho de 2011

Crânios

Nossos contingentes crânios vivos
Ali no travesseiro compartilhado
Pressionam nossa existência
à revelação de uma condição
pelos lábios, sonda adentro,
crânio com crânio, vivos!
Pernas trançadas até as cadeiras,
empuxos firmes pelos cabelos
A resfregar dente com carne,
com dente, com carne
num fio frio dilacerado à espinha
que convulsiona o resto todo misturado
num simples vetor, biológico e feliz.

Ontologia do Cachorro

Não é bem poesia canina
é mesmo uma estatística em clausura
Desconfiada demais
de como um cachorro sarnento
apanha suas coisas humanas...
suas pulgas e peçanhas
no mato da vida sem luz.
Suas partes e portas fechadas
e perspectivas rasteiras, chapadas
contra concebendo em cruzadas
o pavor das noites claras que caem
o giro das viaturas
a recolher nós vagabundos
e impedir-nos as matilhas
de traumatizados, terão mais sabão:
"cachorro lobo é melhor morto"
Tão humano com vontade, medo e latidos
para com aquele frango girando na padoca
de cadela banca a louca
e baba espuma branca pela boca
seca deste agosto.

domingo, 12 de junho de 2011

Soy Hedonista

Direitos divinos devem ao orgasmo,
Deveres humanos devem pleonasmo.
Ser não esta tal comparação,
Direitos humanos aos humanos
e só amor ao teu pet a filiação.

Humanos tão direitinhos, caminhos
com trilhinhos de bitolinhas
e ladrilhinhos tão estreitinhos...
Com medinho de amar ou de ter feridinhazinha de amor no coração...
Tudo perfeito e infantilizado
como uma realidade generalizada:
sem sal, à vacuo, ponta de gôndola.

Mesmo se quiseres sonhar acordado,
só te darão uma opção real de redenção:
insônia e aquela súmula ao pé sono.
Se orar e agir em Deus intencionado,
sem um sorriso cínico e áfono
no canto do beiço, será bem bobo e irresponsável.

Yo no creo en Dios. Soy hedonista.

domingo, 29 de maio de 2011

Descontínuo


Descontínua tudo igual.
Descortina o mesmo sol,
Desatina o ideal.

Sempre vazio e original,
Consciente e racional,
Descontínua tudo igual.

Descortina o mesmo sol
mesma lua, outro austral.
Descontínuo, é natural.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Doce


Tu és sorriso largo inevitável.
Teus lábios firmes, teus alarmes...
Contigo o amargo é inefável,
Néctar, doce flor. Da tua idade,
Sorriso largo inabalável desdobra
Em pele que descobre a energia
Enquanto órgão a tocar com mãos.
E mima a boca tua em minha carne,
Te toco toda, te testo o tato,
Te estremeço pelo paladar, olfato.

Pele preta eu te encontraste
Em nossa humana tez contraste.
Do chocolate as tuas fendas flores
Rosas, rubras e escarlates,
Seio botão, doce melado a tua idade,
Fundamental arrimo em meu tempo
De burro velho, sábio amargo;
Dulçor no caos, aprecio com maturidade.
Tu és alívio, avalio-te explendor.
Reluto tanto mas te rimo:
Eu te ensino meu carinho
Se me adoças teu sabor.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Colmeia

Tu foste o fim da infância
quando te vi, me vi ereto
e apontando tuas entrâncias
me vi homem, me vi feto.
Aquele ego com moleira
onisciente em ideal
encontrara a violeira,
a roqueira, trash metal,
a mais bela, tais flores vermelhas,
a mais doce, qual o de leite:
Minha ira - mãe de abelhas -
ungindo sexo foste o azeite.

Do meu épico foste rainha,
do cósmico amor em ladainha,
das catedrais de nossas línguas,
do infinito de nossos ouvidos,
atentos de promessas, envolvidos
fez carne, de repente, com pentelhos.
O velho mundo nos fez velhos
e vaguei zangando-me adulto
até entender ser feliz, sem tumulto.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Insipiração

Uma escolha inconsciente,
uma decisão irracional,
uma certeza obscura,
uma realidade absoluta,
uma vida crua e pura
de um amplexo animal.

Compreender como passivo
paradoxo do desejo impossível
é uma energia incrível.
Um sonho acordado e recorrente
de largar o corpo na corrente
entregar-se ao leito da serpente
em núpcias com meu caos.

Um amor que hesita
e um tempo que deu êxito
no teu ventre...
e serei mais gente:
menos belo, mais bonito
quando ouvir o grito
de rebento rebentando
tudo o que era plano
e dando peso aos anos
e sentido sem enganos
ao que era meu conflito.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Campos de Flores

Drummond de Andrade me ajudando mais do que nunca.

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Profundidades da alcova

O que é a vida?

Olhando para o teto,
de madrugada,
quase cedo,
p'ra esquerda,
p'ra direita.

Tenho olhos
que não me veem,
só no espelho,
quando tem luz...

O galo canta.

Mas é invertida a imagem,
me olha vazio,
da pupila,
escura,
dilatada,
do escuro.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

paulo leminski



Acabei de voltar da exposição que tá rolando no Itaú Cultural da Paulista. Excelente! Várias entrevistas e poemas q não conhecia... O melhor de tudo, é de grátis! Esse é um dos poetas que eu mais gosto de digerir...

********************

nunca quis ser freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista

queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixo os ponteiros.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Quando nasci...


Quando nasci um anjo bobo,
desses que parecem curinga,
contou uma piada pra mim.
Como tivesse tomado pinga,
achei ela muito engraçada
e repeti a galhofa sem fim,
criando assim a palhaçada,
que se espalhou pelo globo.

Me ensinou com franqueza
que toda piada é a mesma,
só muda a balada, a toada,
a roupa lhe faz personagem,
mas esconde sua alma pelada
de verdade gostosa, gozada.
Tal qual qualquer chiste
que nossa cultura assiste.

Trata-se da veste do bobo
que pisa por vezes no fogo,
malabares com certa ferrugem,
toma quedas, silvos de escárnio.
Todo bobo é um funcionário,
com crachá, horário e salário:
advogado e promotor do demônio,
comandante geral dos hormônios.

O jocoso não arrependido
é tudo menos fingido...
eis o refúgio secreto do cômico
rir à toa de toda ferida
e ofegar de risada querida
com veneno de rótulo irônico,
que põe culpados em pânico
e carrancas a pedir penico

Os humores são como marretas
que quebram qualquer gelo,
e despedaçam estatuetas.
São raros silêncios singelos,
é a compreensão do bom gosto
com aquele rubor no rosto
de quem recebe o martelo
e de medo arrepia seu pelo.

Quando nasci um anjo bufão
me ensinou a rimar e então,
como tivera tomado cachaça,
não acabou nunca a graça
e assim no coreto da praça
ficamos a fazer arruaça
com a voz rouca, enternecida,
dando muita risada da vida.

sábado, 25 de julho de 2009

Londres & Londrina

De Londres a Londrina
não é qualquer esquina
qualquer menina,
qualquer neblina
de Londres a londrina
não é pequena sina,
não somos mais longe,
só não é o mesmo clima
de Londrina até Londres
tem som de tangerina
que foge dos sabores
selando dois amores
de Londres a Londrina
não é qualquer esquina
qualquer guitarra
que se arranha que me amarra
me alucina a Inglaterra
de Londres a Londrina
meu amor é teu intacto,
minha cratera é teu impacto
de Londres a Londrina
o oceano se destina
aos rios sem horizonte
sem beijinhos ou ponte,
há paixão que não se ensina
de Londrina até Londres
de Londres a Londrina
faz da nau um verso torto
nosso mar um amor morto
sem peixinhos, sem um porto
de Londres a Londrina.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Tradição Oral

Meu avô que é vivo é velhinho, e nunca me contou uma só história. Meu avô nunca me disse nada direito, nem dele, nem de ninguém. Só sei dele o que me falam e a tristeza que vejo naqueles olhos de nunca ter sido entendido direito por nenhum neto. Dá muito trabalho ouvir ele.
É como se ele tivesse perdido a Voz; maiúscula, que vai além do som articulado no ar. Hoje só lhe restam atos. Eu o amo, mas a expressão corporal dele não é das mais simples. A depressão veio e foi, veio e foi com o tempo. O álcool não. Perder pessoas queridas só não é pior que perder a si próprio. Uma vez, várias vezes, até hoje troco umas palavras com o Biguá, meu avô.
Um transeunte que anda semicorcunda, ritmadamente pelas calçadas, com os braços para trás do tronco, segurando o cotovelo esquerdo com a mão direita. Andar que combina com o apelido ornitológico. Moreno, cabelos grisalhos e sem a menor perspectiva de calvície, nariz italiano. Faz mais de trinta anos que ele não fala, tem uma traqueostomia permanente na altura do pomo-de-adão e nunca se adaptou com nenhum aparelhinho de voz. Não teve o mesmo sucesso futebolístico que o xará, que chegou a atuar no antigo Água Verde em Curitiba, e depois no Flamengo.
Toda vez que converso com ele temos exclusivamente um assunto: futebol. Acho que foi meu pai quem me ensinou este truque. Ele é corinthiano, eu santista. Meu pai também era santista.
Acho que meu vô tem um sotaque bem do sul do Paraná. Ele é natural de Irati, ou ali de perto. Minhas avós são polonesas, mas o Biguá é uma mistura bem mais heterogênea. Nosso sobrenome é italiano, mas é sabido de todos que a mãe dele (minha bisa) era bugre, o que quer dizer índio do Paraguai lá onde me contaram essa história.
Esta bisa teve cinco ou mais filhos e morreu quando eles ainda eram crianças. Meu bisavô (de quem meu pai tinha muita admiração), vulgo Macaio, segundo me consta recebeu tal alcunha graças a uma marca de fumo.
O velho Macaio entregou um filho para cada padrinho e caiu na esbórnia. O Biguá trabalhou a maior parte da vida na fábrica de fósforos Paraná como gerente de algo. Tem um dos meus tios que também trabalhou lá contando palitos para colocar nas caixinhas. A fábrica era do Macaio e de mais alguns irmãos, eu acho.
Dois dos filhos acabaram fugindo nestas mudanças e não voltaram mais. Só o Benito, que vivia em Uraí. Ele viveu como bóia-fria, virou indigente, e quando teve um câncer de pele bravo foi que o pessoal voluntário do hospital entrou em contato com a família.
Quando o Benito voltou, meu avô teve mais uma das crônicas crises alcoólicas. Não sei o que rolou com os dois, mas na época isso me mostrou o quanto o não-papo devia ser pesado para os dois. O Benito era santista, foi expulso por um surto do vô e depois foi morar lá em casa.
Dos cinco filhos do meu avô, três sairam corinthianos e dois sairam santistas. Meus tios jogaram todos no Cedrinho F.C. de Iraty. Eu nunca fui muito fã de futebol, não ligo muito mesmo e aos quinze anos achei que se tratava do ópio do povo. Meu avô escuta futebol no rádio.
Outro dia fui com dois amigos no estádio assistir um Santos e Corinthians, só que fui na torcida do Corinthians. Que erro! A sensação de não poder torcer pelo seu próprio time é extremamente delicada. Eu não pude gritar gol e precisei simular contentamento com aquela torcida alheia e carrasca. Tudo para não atentar contra minha própria vida quando fomos derrotados ao final do derby.
Um exercício de paciência. A censura de uma expressão tão primária e forte quanto uma torcida é tal que me levou a um estado borderliner de não sei o quê. Eu só topara a princípio a experiência por acreditar na minha parcial impassionalidade com o assunto, mas jamais aconselho tal experiência para ninguém.
Meu avô grita no meio da torcida e ele deve sentir a vida adversária. Mas isso são coisas que me contaram, a Voz dele eu nunca escutei.

domingo, 5 de julho de 2009

Chorume

chorume
se assume como
lágrimas do ido

chorume
tem perfume de
resíduo fluído

chorume
se resume ao
destino líquido

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Moça do busão


Mas... não vou descer do busão
quero saber onde ela mora,
quero saber se ela namora,
se ela gosta da canção
que eu já pensei agora
que ela refutou o botão.

Fecho os olhos para ter
aqueles cabelos tão fininhos
por onde eu tranço os dedos,
puxo firme e me aninho
a descobrir dela os segredos
que só revela com carinho.

Vou dizer que o sorriso dela
mudou o meu itinerário,
e sairei mais depois do horário
pra acompanhar esta donzela.
Chefe, aumente o meu salário
que irá todo em flor pra ela.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Samba do Sol ao Eclipse da Lua

Eu ainda sou teu
quando vou pra orgia
e vou chegando o dia
que de ti amanheceu

Mesmo co'alma ao samba
tantas flores nesse mar
jardins de moça bamba
são beijos sem teu néctar

que eu procuro louco,
tu, flor que me delira.
Sambo camélias e rosas,
com marias-sem-vergonha,

sambo letra desastrosa
com perfume de begônia.
Sambo muito, não pouco,
teu eclipse me martira.

Tu és a minha girassol,
sou só um giralua teu.
Lua, o rei és teu plebeu.
mar do amor tu és farol.

Lua, Sol pra ti que samba
tua ausência me esculhamba
me afogo, vou de mal a pior.
Lua, tu és a flor maior!

Deixa-me em raios te beijar,
não vive o samba sem luar.
não se sobrevive ao mar
de flores sem sambar...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

pesquisar o amor
torna-se um tema
com pouca práxis
poema um sistema
um caos de dados
de pouca análise

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Uma Palavra

Se todas as almas do mundo
escutassem ao mesmo segundo
Teria uma ou duas palavras...
O que você falaria?
Paz, amor, gol?
O nome da sua amada?
Nome da sua banda, nada?

Se fossem as almas do mundo
por total atenção um segundo
você venderia pra um comercial?
Falaria seu próprio nome,
agiria em causa nobre?
Trocaria na internet
por um novo patinete?

Se todas as almas do mundo
lhe escutassem um segundo
gritaria ou calmaria,
a quem você diria?
À sua distante terra,
ao seu distante deus,
à sua próxima guerra?

Se todas as almas do mundo
lhe escutassem uma palavra
entoaria ou prozaria?
Faria apologia proibida?
À ecologia, ao polo, à vida?
"Rock 'n roll!", "toca Raul!",
ou um sonoro "vão tomá no cú!"?