
Quarenta dias
no deserto
são mais alegrias
que quarenta noites
de Domingo
sem companhia perto.
Uma gazeta existencial e pós-contemporânea. Contém poesias embaraçosas, expressões viscerais escarradas e uma boa dose de caótico desejo intenso. Tudo sem absolutamente nenhum compromisso com a verdade ou ficção.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar






























Não sei nada sobre o amor na metrópole, ou sobre qualquer valor possível para o relacionamento entre um homem e uma mulher neste ambiente tão devorador. A confiança em encontrar alguém de naipe vai sumindo a cada namorada que chifra e goza do respectivo em meus lençóis. Uma delas já me disse que fico com a melhor parte da história: "você me come e não precisa agüentar minha TPM"...
No fundo o que ela quis dizer é que ninguém espera responsabilidade qualquer de minha parte. Nem mesmo sem camisinha eu trepo para aquela vagabunda não ter chance de engravidar, sem chance! Até porque namorada dos outros só aparece quando tá menstruada... Estas vacas vêm e vão e às vezes me apego a elas... o que a solidão não faz com o ser humano?! Até que elas percebem como sou ridículo, carente, sem amor-próprio e vão embora com seus respectivos oficiais...
Me sinto como se fosse a toalhinha chapada do South Park... pior! Como se a toalhinha fosse um modess... tudo por culpa de mim mesmo e das coisas que faço.
"Do you wanna get hiiiiiiigh?!"



Avatares são a grande novidade social no que diz respeito às relações interpessoais na metrópole desde que a revolução da informação começou a mostrar a que realmente veio com as novidades de web 2.0. O fenômeno de pessoas que perdem horas no exercício narcisista de preencher um perfil pessoal, como se estivessem frente a um espelho, exemplifica bem a importância deste elemento de identificação na comunicação em redes.
Numa abordagem funcionalista, os avatares do dia-a-dia online representam a persona do indivíduo contemporâneo, que tem total liberdade associativa para compor sua imagem virtual, tal qual um deus de poderes ilimitados, ou um super-herói o teria. Essa metamorfose, no que tange a imagem, o nome e a "mensagem pessoal" (no caso dos chats populares como MSN, AOL, Gtalk, etc.) é típica de uma divindade. Todavia, com a fundamental diferença de nossos tempos: um deus individual alojado em um ego extremamente desenvolvido em relação à particularidade de sua identidade social. A fidelidade para com um único sistema de valores cai por terra também já que nenhum padrão de conduta poderá garantir sucesso frente a um público desconhecido. Estamos sempre a pisar em ovos até descobrirmos um pouco sobre os valores, julgamentos e maneiras como devemos tratar um interlocutor casual da metrópole e isso não se reflete no ambiente virtual, onde interagimos sob a proteção da distância física e/ ou anonimidade.
A influência do capitalismo sob a "personalidade coletiva" do ser contemporâneo o transforma, em uma perspectiva isométrica isso é bem verdade, em servo durante as obrigações e senhor feudal enquanto consome. Este contexto abre espaço para nossas complexas atuações sociais, que não esperam encontrar mais em si uma coerência única e simples para atos e decisões, mas uma coerência multifacetada, que levará em conta as diferentes "bolhas" sociais com as quais nos relacionamos todos os dias.
Este fato é importante porque a gama de poderes sociais distribuidos dentro de um ambiente em rede não deixa de ser hierarquizada. Pelo contrário, para que funcionem elas utilizam classificações, programações, rankings e critérios que obedecem a um sistema de poder que tem sido chamado de meritocracia (Wikipedia, Digg), mas que no fundo não passa da mesma manipulação tradicional subserviente à cultura de quem domina as instituições. O que muda é a natureza desse domínio, já que o espaço virtual é multi-dimensional, teoricamente irrestrito e exige uma postura minimamente ativa por parte do usuário, que busca na rede sempre lugares e conceitos que lhe identifiquem. Cada um pode ter a livre iniciativa de criar um clã, um olimpo, uma tribo, de acordo com o sistema ideológico disseminado e acatado como verdade sócio-cultural do grupo que lhe freqüenta. Porém, o que a expansão da Google tem deixado claro é que, assim que um domínio adquirir certa popularidade, ele será fagocitado, como foi o caso do Youtube e tantos outros.
Todos meus contatos imprescindíveis ainda utilizam ferramentas de web 1.0 (como emails, egroups e chats P2P). Isso acontece, a meu ver, devido ao âmbito presencial/real em que surgiram, mas que seriam muito mais eficientes se hoje expandidos para um blog, por exemplo, não se tem dúvida. Isso não acontece, possivelmente, devido a um repúdio à exposição pública. Exposição essa que não constrange em um ambiente virtual fechado, onde os avatares possuem um histórico de encontros presenciais. O controle sobre a audiência é um imperativo para o avatar, neste sentido, pois disso depende seu status na rede; por conseqüência, a influência e poder de seus links sob a opinião de seu público. Este fato, de caráter meritocrático, plenamente subjetivo, coletivo e certamente moral, condiciona e coibe uma participação mais colaborativa por parte do usuário algumas vezes. A exposição em um ambiente web 2.0, por ser muito mais ampla, tende a criar muitos mais avatares para um mesmo indivíduo com mais rapidez do que a web 1.0 poderia possibilitar ou necessitar, sejam eles anônimos ou não.
